Engenho de farinha no Norte da Ilha – Lagoinha.

Jul11

Engenho de farinha no Norte da Ilha – Lagoinha.

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Engenho de farinha no Norte da Ilha – Lagoinha.

Pequena fábrica de farinha de mandioca atende demanda dos moradores da região.

Em meio a casas modernosas, asfalto, tráfego intenso e até uma ou outra família com chaleira e cuia de chimarrão na varanda, persiste, no bairro de Ponta das Canas, um engenho que produz farinha de mandioca nos moldes das antigas fabriquetas do interior da Ilha de Santa Catarina. Se na tração os bois foram substituídos por motores elétricos, o processo de produção segue a cartilha dos velhos nativos que cultivavam aipim, milho, feijão e cana nas encostas dos morros. Pouco mudou nas práticas de descascar a mandioca, moer, cevar, secar e prensar a massa, peneirar a farinha e cozinhá-la antes da etapa final, que consiste em ensacá-la para a venda.

Localizado numa servidão junto à estrada que leva à praia Brava, no Norte da Ilha, o engenho de Domingos Norberto Coelho, 71 anos, está ali há cerca de três décadas e resultou do desmonte de um equipamento similar desativado na redondeza. Hoje a colheita e o beneficiamento da mandioca se esgotam no mês de julho, rendendo em torno de 25 sacos de 45 quilos cada um. “Vendo tudo para as pessoas que vêm aqui procurar a farinha”, diz Domingos, que nem sempre consegue atender a todas as encomendas. Aposentado como pescador e vigia, ele não depende propriamente do engenho para sobreviver, mas não pensa em largar uma atividade que exercita desde a infância.

“Seria uma pena acabar, porque nós fomos criados nisso”, emenda Valdemara Maria Coelho, mulher de Domingos, dizendo que o marido ficaria doente se tivesse que deixar a roça. E olha que o trabalho não é tão fácil quanto parece: um pouco longe dali, a cavalo, ele sobe o morro de manhãzinha, vai até a ladeira do outro lado, traz a mandioca em “serões” (cestos amarrados nas pontas de um pedaço de madeira) e a deposita ao lado da estrada principal do bairro, de onde uma picape faz o translado final até o engenho. Neste período do ano, o ambiente ganha vida, com seis ou sete pessoas – quase todas da família – se esfalfando no descasque da mandioca e nas outras etapas do beneficiamento.

Isso vai de segunda a sábado, num ritmo sempre igual, de pouca conversa e com os netos de Domingos e Valdemara entrando e saindo do engenho – sua segunda casa. O forneiro, figura central na produção da farinha, chega às 3 h e só para no final da tarde. Há cinco anos essa atribuição cabe a Manoel André da Silva, o Manequinha, pescador que já trabalhou embarcado e ganha um troco fora da antiga profissão. “A pescaria está fracassada”, sentencia ele, assegurando que até para a tainha “este ano foi de mixaria”.

Sem os filhos que já estiveram no mesmo batente e que hoje trabalham fora, os donos do engenho apelam para familiares e vizinhos quando o trabalho aperta. É o caso de Arcinia do Nascimento Souza, tia e madrinha de Domingos Coelho, que aos 81 anos dá um banho descascando mandioca sentada praticamente no chão do engenho. Na mesma lida estão Alair Geni da Silva, irmã do proprietário, e Olíndia Constância Batista da Silva, moradora dos arredores.

Os filhos moram todos perto, por isso os netos vêm se criando praticamente dentro do engenho dos avós e, quando crescidos, ajudam nas tarefas mais simples. “Se deixarem, eles vêm para cá de madrugada”, destaca Valdemara.

Nos últimos tempos, dificuldades de toda ordem vêm reduzindo o volume da produção de farinha. De um lado, os órgãos ambientais não permitem a derrubada da mata e qualquer tipo de queimada, forçando os plantadores de mandioca a trabalharem sempre na mesma gleba. Depois, os filhos foram saindo da atividade para assegurar um salário mensal em empregos na região. Por fim, com a idade avançando, os velhos produtores diminuem o ritmo de trabalho. O próprio Domingos passou muitos anos atrás de tainhas e corvinas – hoje, assim como os engenhos, os ranchos de pesca da Ilha vivem da sazonalidade, porque o peixe também anda escasso.

Ambiente de trabalho e festas

Domingos Norberto Coelho pegou o tempo em que apenas uma linha de ônibus atendia a Ponta das Canas. Ele saía para a cidade às 8h e voltava no meio da tarde. Nos sábados, se alguém quisesse ir para o Centro tinha que caminhar até a Cachoeira do Bom Jesus e esperar o coletivo que vinha do Rio Vermelho. Diversões? “Tinha os bailes e um campinho de futebol perto da escola”…

Ali perto só havia a casa de seu pai e a de um vizinho. Quando chegou o asfalto, cobrindo velhas trilhas de carroça, o bairro explodiu. E, quando a praia Brava virou uma coqueluche, acabou a tranquilidade na região.

Para um lugar que já teve oito engenhos, nas contas de seu Domingos, até a segurança hoje deixa a desejar, resultado do adensamento populacional da Cachoeira e da Ponta das Canas. Sair à noite, por exemplo, deixou de ser rotina, embora haja mais comércio, iluminação e dinheiro no bolso. “Antigamente, todos trabalhavam na roça”, recorda o dono do engenho, que por ser conhecido de todos ainda vende fiado, mas nunca teve uma dívida negada. Também, sua farinha não tem misturas e nem veneno, como ele chama os agrotóxicos. “Só preciso controlar as formigas”, informa.

Apontando para uma canga pendurada na parede, “o que sobrou de um antigo carro de bois”, Domingos conta que Cesar, um de seus quatro filhos, costuma trazer os amigos – os “Amigos do Espeto” – para fazer festas no engenho, fartas em carne, roscas de polvilho, beijus e cuscuz produzidos ali mesmo, na casca de bananeira, para consumo interno. Um grupo de idosos também se reúne ali de vez em quando, e festas do Dia das Mães e Dia dos Pais já fazem parte do calendário da família. O engenho fica  aproximadamente 1,500 m do Antares Club Hotel Lagoinha  e, é um passeio que te reporta a um passado  recente  da comunidade de Ponta  das Canas- Lagoinha. Vale a pena fazer uma visita!

PAULO CLÓVIS SCHMITZ, FLORIANÓPOLIS 29/07/2017